#ErrarÉHumanoPersistirÉBiel

Pesquisa e post por Pricilla Farina Soares

Nesta semana, no dia 01 de agosto, diversos sites de notícias reproduziram uma matéria em que o cantor Biel fala, em entrevista gravada em vídeo para o Programa TV Fama da RedeTv!, que caso encontrasse pessoalmente a estagiária de jornalismo do site IG que o acusou de assédio, esclareceria o quanto, para ele, ela prejudicou sua carreira. Em junho, a repórter do IG foi assediada ao fazer uma entrevista com Biel, que entre outros comentários a chamou de “gostosinha” e disse que “a quebraria no meio”, caso mantivessem relações sexuais. Biel disse que tudo não passava de brincadeira.

O assédio repercutiu bastante em sites de notícias e, principalmente, nos sites de redes sociais. No dia 06 de junho o youtuber Felipe Neto divulgou um vídeo “Biel- Não Faz Sentido”, que na mesma data chegou aos Trending Topics. No dia 07 de junho a hashtag #CorrentedeAmordoBiel – atribuída aos fãs do cantor – também foi parar nos tópicos mais comentados do Twitter. Alguns dias depois, no dia 13 de junho, outra hashtag foi destaque no Twitter: #BielGostosinhaÉSuaIrmã. No dia 28 de julho o cantor foi novamente lembrado quando foi divulgado um vídeo seu, em uma festa de aniversário em que ele canta a frase pela qual foi acusado de assédio. A hashtag #BielRespeiteAsMulheres chegou, novamente, aos Trending Topics. Esta semana, o cantor reapareceu por meio da tag #ErrarÉHumanoPersistirÉBiel no Twitter, desta vez com a repercussão de sua entrevista ao programa de televisão.

Hoje, nossa proposta foi fazer uma análise em torno da hashtag #ErrarÉHumanoPersistirÉBiel, que surgiu após o depoimento de Biel de que a repórter (assediada por ele) havia prejudicado sua carreira como cantor, e quando usuários do Twitter começaram a publicar tweets antigos dele, entre eles comentários preconceituosos, machistas e racistas. Apesar desses tweets terem começando em função da nova publicação acerca do assédio sofrido pela repórter do IG, a rede que se formou em torno da tag não menciona o fato, já que o que a impulsionou para os TTs foram os prints dos tweets antigos de Biel.

Coletamos ao todo 37.533 tweets divididos em duas coletas no dia 02 de agosto, uma no turno da manhã e outra no turno da tarde. Na primeira coleta realizada no dia 02 de agosto, às 10 horas, coletamos os 18.900 tweets que originaram o grafo abaixo (clique na imagem para ver maior), que apresenta as co-ocorrências de palavras mais utilizadas.

grafo10h

Grafo 1. Dados da coleta #ErrarÉHumanoPersistirÉBiel realizada às 10h

O grafo apresenta quatro clusters (grupo de tweets que se relacionam pelo conteúdo), mas que também se misturam. Em destaque verde podemos ver as palavras “carreira”, “acabou”, “micão” e “Taylor Swift”. O cluster em rosa está diretamente relacionado à cantora Taylor Swift, na qual os interagentes estabeleceram uma comparação sobre a cantora estar frequentemente envolvida em polêmicas no Twitter e com outros/as cantores/as. Os atores da rede dizem que “cada país tem a Taylor Swift que merece”, usando para isso recursos discursivos característicos do humor para tratar do assunto. Os termos “viciado” “imaginem” e “tweets antigos” também fazem referência sobre o cantor ser viciado em pagar micos. Os atores da rede também estariam imaginando como Fátima Bernardes, Luciano Hulk e Danilo Gentili veriam os tweets antigos de Biel, já que um tempo após os ter criticado ele acabou participando dos programas dos três apresentadores.

A palavra “carreira” está presente em toda rede e os interagentes ficam a todo momento afirmando que a carreia de Biel acabou, por isso a relação dos termos “micão” e “povo”, com tweets sobre o fato do povo “não perdoar”, não deixar passar em branco. Com menos destaque aparecem as palavras “nojo”, referindo-se não necessariamente às ações do cantor, mas sim a ele e às fãs que ainda o defendem. Ao contrário das hashtags anteriores, em que parecia haver uma disputa entre fãs e quem estava criticando, desta vez a disputa não ocorre. As palavras “moleque”, “falsiane” aparecem e, isolados da rede (em vermelho no Grafo), os termos “falsinha” e “escroto”. No cluster em vermelho no canto direito, aparecem os termos “falsa”, “falsianes” e “falsidade”. A palavra “Twitter” também surge e as pessoas parecem comemorar como o fato está sendo encarado no site de rede social.

Os antigos tweets de Biel contém comentários machistas, sexistas e racistas, muitos utilizando o humor para suavizar seu discurso. Além dos tweets há a própria situação no qual o cantor é acusado de assédio e, em mais uma entrevista afirma que a repórter foi quem prejudicou sua carreira. Entretanto, na maioria dos tweets o termo “micão” aparece com destaque, suavizando de certa forma os discursos proferidos pelo cantor – seja em entrevistas, por meio das acusações ou no perfil do Twitter – e dizendo se tratar apenas de uma série de micos que prejudicaram a carreira de Biel.

Na segunda coleta feita também no dia 02 de agosto, às 14h45, coletamos 18.633 tweets sobre a hashtag #ErrarÉHumanoPersistirÉBiel. A segunda coleta apresenta diferentes grupos temáticos, não é uma rede densa e há clusters bem separados, com diferentes focos, ainda que haja a manutenção dos discursos sobre os tweets antigos de Biel. (clique no grafo para ver maior)

14h45m

Grafo 2. Dados da coleta das 14h45min

Há muitos perfis sendo retuitados nesta nova rede, mas os termos “carreira” e “Twitter” seguem com nós maiores, ou seja, continuam sendo muito utilizados. O termo “tag” surge relacionado a “Twitter” e “momento” porque as pessoas ainda comemoram como a tag está sendo disseminada no site e como as pessoas estão empenhadas em contribuir para mostrar os “micos” de Biel (as menções sobre “berro” e “berrando” logo acima são de comemoração sobre a tag estar nos TT’s). O cluster em verde traz os termos “close errado”, “internet”, “micão”, “vídeo” e “hoje” porque muitos interagentes estavam debochando do cantor e dizendo que “no vídeo de hoje” (simulando uma abertura de vídeo) eles ensinariam, com Biel, a como pagar mico na internet. O termo “close errado” aparece como sinal de desaprovação.

O cluster em amarelo relaciona “menino”, “corpo” e “respeito”, com tweets reprovando um tweet antigo de Biel no qual o cantor afirma que mulheres que usam roupas decotadas não se dão ao respeito, e dizem que o cantor é só um menino que usou o corpo para aparecer. Em razão de todas suas polêmicas muitas pessoas disseram que Biel não merece respeito, por isso a presença do termo na rede. O outro cluster também o chama de “lixo humano” e as pessoas dizem não entender como as fãs o defendem.

O cluster em roxo/vermelho tem as palavras “estupraria”, “mulher” e menções ao apresentador Luciano Huck porque as pessoas estavam direcionando à fala a ele, perguntando o que Huck achava do tweet antigo de Biel afirmando que ele estupraria sua esposa. Ao lado há um cluster em rosa que tem o termo “cair” e menções a um perfil. O termo refere-se ao comentário de @otariano, de que Biel havia deixado cair seu cérebro. O cluster em roxo, na parte mais afastada do grafo são tweets falando sobre pessoas que ainda reclamam de ter amigas falsas – aqui o uso exclusivo do feminino talvez indique um discurso de competitividade entre mulheres – fazendo uma comparação com a falsidade de Biel.

Os destaques da rede continuam sendo os “micos” de Biel, já que os comentários fazem referência à sua falsidade – o termo “falsiane” aparece novamente – e comentários sobre sua falta de talento também surgem. Novamente o foco é dizer que sua carreira acabou, que ele é um lixo humano e que não cansa de pagar mico. Parece haver uma divisão entre tweets que estão levando o assunto com humor, tratando tudo como um “micão” (cluster verde) e outros que não entendem quem o defende e o classificam como “lixo humano”.

Foram mais de 100 mil tweets ao longo do dia 02 de agosto com a hashtag #ErrarÉHumanoPersistirÉBiel e, após a reprodução de inúmeros prints de tweets antigos, Biel bloqueou suas contas no Twitter e no Instagram, o que gerou mais uma série de comentários. Além das próprias questões sobre o assédio, os depoimentos de Biel sobre as acusações e o fato de a cultura do estupro estar tão enraizada a ponto de ser naturalizada, o fato desta hashtag ter entrado nos Trending Topics em função da reprodução de tweets antigos traz à tona questionamentos sobre o que é dito online e as características próprias das redes sociais online, como a perenidade dos discursos, a buscabilidade e a apropriação daquilo que foi dito por outros interagentes.

Metodologia
Coleta: NodeXL
Formatação e filtro: Notepad++ e Textometrica
Formatação e análise: Gephi

 

#EstuproNãoéCulpadaVítima: a hashtag que viralizou nas redes e sua repercussão no Twitter

Pesquisa e post por Letícia Schinestsck

A publicação de um vídeo apresentando imagens de uma adolescente desacordada, nua e cercada por homens, no Rio de Janeiro, viralizou nas redes sociais no dia 25 de maio. A jovem, ao prestar depoimento à polícia, afirmou ter visto, ao acordar, 33 homens ao seu redor. Com o caso, houve grande repercussão sobre o ocorrido, que levou a manifestações online e presenciais de mulheres e também homens em todo o Brasil e até internacionalmente.

Levando em conta que um dos focos de pesquisa do Grupo MIDIARS, o discurso da violência simbólica e de gênero, buscamos apresentar neste post a síntese de uma investigação sobre o movimento que emergiu na rede por meio da hashtag #EstuproNãoÉCulpadaVítima, que teve forte apoio e solidariedade à menina e a casos diários de violência contra a mulher, e segue acompanhando manifestações online sobre assédio às mulheres. O compartilhamento das imagens causou revolta e indignação, mas também contou com comentários que refletem a mulher, vítima, como culpada de seu próprio assédio, responsável pelo que acontece nesses casos. Assim, objetivamos coletar e apresentar ambos e demais discursos para entendermos em parte como foram constituídos os tweets em torno deste assunto e como está disposta a violência discursiva contra as mulheres neste caso. Também nos interessa observar os discursos dominantes em cada grupo e identificar os pares de palavras que aparecem mais juntos em cada cluster e qual a sua frequência.

Para isso, analisamos o uso da hashtag no Twitter no dia 27 de maio, com dados coletados às 18h30min. São observações relativas somente ao momento da coleta e aos 17.578 itens analisados, não generalizando todos os dados relativos à tag em nossa conclusão. O método de análise que utilizamos foi, resumidamente, a coleta pelo NodeXL Pro, a formatação e filtro de palavras pelo Textometrica, e a leitura dos dados e formatação da distribuição dos grafos pelo Gephi. A partir dos grafos prontos através desses softwares pudemos observar a aproximação de palavras e entender como os termos se conectaram entre si nos discursos em torno da hashtag naquele momento na rede.

Separação por Clusters

A primeira imagem apresenta a separação dos grupos discursivos por clusters, ou seja, por aqueles atores que conectam outros atores dentro da rede.  (clique na imagem para ver maior)
Imagem1_Grupos_1

Figura 1. Separação dos grupos discursivos

Os grupos separados em cores concentram discursos que, apesar de pertencerem a grupos distintos, estão interconectados. Observando os dados no NodeXL, a maior parte dos grupos forma um misto de relatos de situações vividas por mulheres e suas experiências individuais e coletivas que apontam o assédio e demonstram revolta e desprezo para com opiniões que têm emergido na rede, aquelas que tentam justificar o que aconteceu pelas atitudes e estilo de vida da própria vítima. Ainda assim, há a separação de grupos que defenderam a causa da menina, do feminismo, protestando contra o machismo e a cultura do estupro; e também aqueles que fizeram o oposto, expondo a adolescente como culpada pela situação, ou então emitindo opiniões contrárias às do movimento feminista na rede.

Organizamos uma tabela com as principais palavras usadas em cada grupo, seguida do número de vezes em que foi utilizada a fim de facilitar a visualização dos discursos predominantes em cada cluster.  (clique na imagem para ver maior)

Imagem2_tabela

Percebe-se o quão próximos se encontram as expressões, embora façam parte de grupos distintos. A discussão dos grupos parece girar em torno das causas de estupros e as justificativas usadas pelos outros para abrandar ou legitimar a violência, como o par de palavras do G2 (roupa + curta) e G3 (justifica + estupro). O destaque é para a mobilização que dá nome à hashtag #EstuproNaoÉCulpaDaVitima que, no G1, apresenta informações específicas do caso do estupro no Rio de Janeiro, como a dupla “30 + homens” e o que diz respeito ao culpado, lembrando que há uma tendência de culpabilizar os outros e escolher sua sentença junto ao coletivo, como veremos ainda. No G4 também é possível identificar o debate em torno de “causas + estupro”. Já o G5 apresenta uma situação específica de um tweet publicado pelo Usuário7 e repudiado por muitos internautas, como é possível visualizar no grafo.

Um exemplo do grupo discursivo que defendia a menina foi o tweet de @Usuário1, que tem mais de 620 mil seguidores no Twitter. (clique na imagem para ver maior)
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O discurso de @Usuário1 é exemplo do valor que predomina na rede no momento da coleta. O G1, representado na imagem em azul enfatiza a discussão em cima da cultura do estupro; o G2, azul claro, lembra a questão da roupa e de bandeiras levantadas por deputados polêmicos como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, que foram criticados pelo repúdio aos homossexuais e conformidade com o caso em que uma menina de 16 anos foi supostamente agredida sexualmente por, no mínimo, 30 homens. “@UsuárioX: Ninguém MERECE ou PEDE pra ser estuprada!!! Não existe JUSTIFICATIVA pra essa catástrofe. Deixa de ser IMBECIL!!! #EstuproNaoÉCulpaDaVitima”, diz um internauta. Outro usa o próprio caso da jovem carioca para expressar sua indignação “@UsuárioY: “Se ela era piranha o problema é dela, nada justifica um estupro, nem 1 nem de 33 homens” -Meu Pai! #EstuproNaoÉCulpaDaVitima Cada um a sua maneira, mas todos os clusters naquele momento pareciam sustentar a ideia de que nada justifica o estupro.

Com o NodeXL tivemos uma ideia do tipo de discurso que circulava em cada grupo no momento da coleta. Ao todo foram 224.994 palavras, sendo as principais, como já havíamos apontado, a hashtag #EstuproNãoÉCulpaDaVitima (11.275 vezes), seguido das palavras “estupro” 2.979 vezes), “pode” (1.769), “nada” (1.587 vezes) e “justifica” (1.284), reforçando nossa conclusão de que a rede replicava tweets e discursos que desconstruíam qualquer tipo de justificativa para o ato.

Com a breve visão geral sobre a separação dos grupos discursivos na rede, passamos a observar a rede em sua estrutura de conteúdo. Para isso, apresentamos então os grafos com representações das palavras mais citadas, como elas co-ocorrem e se conectam na rede. Nesta etapa, analisamos o mesmo corpo de dados, isto é, os 17.578 tweets publicados com a hashtag #EstuproNãoÉCulpaDaVitima.

O primeiro grafo (clique na imagem para ver maior) representa os dados de co-ocorrências de palavras ligadas a #EstuproNãoÉCulpadaVítima, no momento da coleta em 27 de maio:  (clique na imagem para ver maior)
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Grafo 1. Distribuição das co-ocorrências de palavras 

Ressaltamos em verde a forte conexão entre as palavras “homens” e “medo”, e vemos em laranja “mulheres” e “estuprada”, também relacionadas a “roupa” e “estupram”. Em verde, “medo” também é ligado a “sozinha”, apresentando o sentimento comum entre muitas mulheres quando precisam andar sozinhas na rua em horários e locais não propícios à segurança. Um exemplo deste discurso é o retweet:

“Vcs homens nunca vão entender o medo de quando um carro começa a diminuir a velocidade e para pra falar gracinha. #EstuproNaoÉCulpaDaVítima”.

Em roxo, o termo “cultura” é associado a “justifica”, com discursos que entendem que apesar da cultura presente na sociedade, nada serve como justificativa para o estupro. Muitas figuras públicas, especialmente políticas, se posicionaram contra a cultura do estupro. O deputado Jean Wyllys, por exemplo:

RT @jeanwyllys_real: Manifesto contra a cultura do Estupro: não se cale diante de uma violência. https://t.co/4GI4zzejZ7 #EstuproNaoÉCulpaDaVitima

E também a Presidenta Dilma Rousseff, que através da hashtag e de um link para o Facebook do perfil de Dilma Bolada, personagem satírico da mesma, buscou esclarecer o que é, afinal, a cultura do estupro:

“RT @diImabr: O que é a cultura do Estupro? https://t.co/tF9Uk9xC4S #EstuproNaoÉCulpaDaVítima”.

Para a melhor visualização dessas conexões discursivas, apresentamos um grafo normalizado, criado a partir dos mesmos dados, porém com distribuição diferente de nós:  (clique na imagem para ver maior)
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Grafo 2. Distribuição das co-ocorrências de palavras em 27/05/2016

Observando a estrutura dos grafos, observamos que existe forte relação entre discursos que associam a questão das vestimentas com estupro de mulheres. Esse tipo de tweet/comentário dá manutenção a valores historicamente construídos e transmitidos pelas relações sociais, seguindo o pensamento de Bourdieu. Ilustramos essa ligação com o tweet a seguir:

“Meu corpo nunca pediu pra ser estuprado e eu uso a roupa que eu quiser! #EstuproNaoÉCulpaDaVitima”.

Mais aparente no segundo grafo, percebemos em roxo a relação de “Spotify” com “Vítimas”, intermediada pela hashtag em questão. Essa conexão entre os termos se explica pelo lançamento de uma playlist feito pelo aplicativo Spotify no qual o nome de cada música, quando lido na sequência, formava uma mensagem contra o caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro.  (clique na imagem para ver maior)

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A discussão sobre as vítimas aparecem em manifestações como no tweet a seguir:  

Imagem7_Tweet3

Também em roxo, a ocorrência de “Ajuda” se refere principalmente a um acontecimento em que o usuário publicou a opinião que dizia preferir o termo “Sexo Surpresa” a “Estupro” e depois deletou, causando muita indignação em perfis femininos, que replicaram o que foi dito junto a um novo tweet do usuário Se é pra ajudar, ajuda de verdade. #EstuproNaoÉCulpaDaVitima”. Muitas usuárias questionavam o jovem, o qual, pelas acusações, parecia manter uma imagem pública com vídeos na própria plataforma, se era desta forma que ele estaria ajudando a situação. Cabe aqui observar que este foi um caso de um indivíduo que teve seus dizeres passados expostos em forma de provas (printscreen/imagem de tela), mesmo após ter deletado da internet a publicação em questão.

Num intermédio entre os grupos em laranja e roxo, o conceito “estupram”, na sua própria forma ortográfica – terceira pessoa do plural – indica do que se fala. Quem estupra: “eles” estupram, pois, segundo os tweets da coleta analisada, “Roupas curtas NÃO estupram. Em razão do que observamos, nem bebidas ou horários, os que estupram são pessoas e olhares que intimidam as mulheres, instigadas a se posicionarem na rede sobre o acontecimento que, apesar de ter origem no que aconteceu a uma jovem, é realidade que envolve a identidade e a história construída por todas elas.

Ao mesmo tempo em que a rede atua para agrupar movimentos e articular causas como essa, em que os direitos da mulher é defendido, também é palco da loucura coletiva, da qual Ronson fala. São situações em que os indivíduos perdem totalmente o controle e uma espécie de loucura contagiosa toma os usuários. Esse tipo de comportamento tende a facilitar os julgamentos e manifestações tão violentas como a causa inicial. O estupro coletivo de que falamos serviu como o pontapé inicial para um amplo debate sobre o tema estupro na sociedade brasileira, especialmente alertando para a existência de uma “cultura do estupro” que, embora sentida na pele diariamente por muitas mulheres, nem sempre são reconhecidas como um tipo de violência e assédio.

Finalizamos esse post com o que foi dito pelo mesmo autor, Ronson, em seu livro Humilhado:  “No Twitter, tomamos nossas próprias decisões sobre quem merece ser destruído. Formamos o próprio consenso, e não somos influenciados pelo sistema de justiça criminal ou pela mídia. Isso nos torna assustadores.” (P.200).  

Independentemente do nível do julgamento e de cada usuário, que sugere múltiplas vinganças para o acontecimento, destacamos a maneira com que a situação foi recebida e reverberada pelos usuários. Vemos que as redes sociais têm servido como palco para que acontecimentos assim, delicados, porém frequentes e ainda pouco debatidos ganhem espaço. A partir de uma mesma hashtag, tivemos acesso à múltiplas narrativas e valores de distintos coletivos que, apesar de singulares estavam representados pela hashtag, que Malini e Antoun (2013) chamam de assinatura. Um ponto comum, uma identidade/assinatura única, que ramifica-se e deixa à mostra, pela rede, a diversidade de narrativas existentes.

Podemos dizer que, ao menos naquele momento, a rede não se mostrava passiva e conformada com o que estava acontecendo. Pelo contrário, o estupro coletivo foi somente o gatilho para que #EstuproNãoÉCulpaDaVítima fosse apropriada e a cultura do estupro na sociedade atual fosse concebida como uma realidade e questionada como tantos outros fatos de interesse público nos quais a rede serve como ponte, como o hub que junta e organiza as informações e os pontos de divergência existentes nas relações atuais.

Metodologia
Coleta: NodeXL
Formatação e filtro: Notepad++ e Textometrica
Formatação e análise: Gephi

Estupro coletivo: repercussão e análise comparativa no Twitter

 Pesquisa e post por Pricilla Farina Soares

Nos últimos dias usuários/as de sites de rede sociais como o Twitter e o Facebook vem falando sobre o caso de estupro coletivo da adolescente de 16 anos, que aconteceu no Rio de Janeiro, e também sobre a cultura do estupro no País. O tema começou a gerar repercussão no dia 25 de maio, quando usuários do Twitter estavam pedindo que os perfis de três acusados do estupro coletivo tivessem suas contas denunciadas. Um deles divulgou um vídeo da adolescente no Twitter e outros postaram fotos da menina no Facebook.

Coletamos ao todo 55.165 tweets em quatro momentos, do termo “estupro”. Duas coletas foram feitas no dia 25 de maio, uma ao meio-dia e outra às 16h30, uma coleta feita no dia 26 de maio, às 17 horas, e a última no dia 28 de maio, 00h30. O intuito era fazer grafos representativos das co-ocorrências de palavras em relação ao termo a fim de visualizar o que estava sendo discutido em relação ao assunto na rede e as modificações com o passar dos dias.

Primeira coleta: dia 25 de maio, meio-dia

O grafo abaixo (grafo 01 – clique na imagem para visualizar maior) representa as principais menções encontradas logo que o termo surgiu nos trending topics no Twitter. Ao todo, foram coletados 15.609 tweets, no dia 25 de maio.

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Grafo 1:  co-ocorrências no Twitter ao meio-dia do dia 25/05/2016

Observando o grafo apesar da dispersão de tweets há três grupos que aparecem com as arestas (as conexões dos termos) em maior evidência. O grupo em vermelho se refere ao Acusado 01, que divulgou o vídeo da adolescente na rede, onde as pessoas o chamam de “moleque” e “metido a transão”, relacionado ao termo bebida (que ele teria dado à jovem), afirmando que ele havia filmado a adolescente, linkando o perfil dele para que as pessoas fizessem a denúncia. No grupo em azul há menções ao perfil da Polícia Federal, indicando os perfis dos acusados de divulgarem o vídeo e as fotos, e o termo “investigue”, pedindo que a Polícia faça algo a partir da denúncia desses perfis. O grupo em verde se refere a um usuário (que recebeu diversos retuites) da rede que faz menção a Polícia do Estado do Rio de Janeiro, pedindo que se tome uma atitude.

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Quanto maior o termo aparece nos grafos, mais vezes ele foi citado nos tweets, portanto, além do termo estupro, que foi a palavra usada para a coleta, surgem também os termos garota, menina e mina, todos relacionados à adolescente que sofreu o estupro coletivo e foi exposta na rede. Consequentemente o perfil do Acusado01, que divulgou o vídeo da menina, também aparece com destaque nos termos mais usados, assim como “vídeo”, “denunciar” e “divulgaram”.

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No grupo em verde, na parte inferior do grafo, aparece a relação dos termos “vítima” e culpa”, na qual a maioria dos tweets afirmava que a culpa não é da vítima. Aparece também o termo “nojo”, em que as pessoas se referem ao nojo que sentem do mundo em que estão vivendo, “crime”, com tweets dizendo que estupro é crime, e o repúdio a quem estava “compartilhando” (ainda que com o intuito de que as demais denunciassem) ou que estavam rindo do vídeo. Neste primeiro grafo as menções e as relações dos termos tem como foco a denúncia dos perfis de quem compartilhou o vídeo do estupro coletivo da garota, já que a rede recém havia ficado sabendo do que estava acontecendo. Há, portanto, uma mobilização para que as denúncias sejam feitas e um repúdio ao que aconteceu.

Segunda coleta: dia 25 de maio, 16h30

A outra coleta, feita no mesmo dia, mas no período da tarde (16h30) traz outros termos. No segundo grafo (grafo 02) foram coletados 18.767 tweets, e nele os clusters estão mais separados, o que torna possível perceber os discursos mais nitidamente. No grupo rosa/roxo surgem os termos “desprezível”, “nojento” e “desumano”, para se referir ao ato do estupro.

 

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Grafo 2:co-ocorrências no Twitter às 16h30 do dia 25/05/2016

No grupo em azul o termo “machismo”, “homem” e “indignassem” aparecem relacionados a um tweet da Usuária 02 que fala que gostaria que os homens se indignassem com estupro e machismo assim como se indignam ao serem generalizados. Isso porque muitos tweets estavam falando sobre o medo em relação aos homens e as tentativas de justificar o estupro coletivo por parte deles. A palavra “piada” aparece com destaque em tweets que explicitam o fato de que o estupro não deve ser tratado com piadas.  

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Novamente os termos “culpa” e “vítima” aparecem, com tweets reafirmando que a culpa não é da vítima, e então também há o grupo em verde com os termos “culpado” e “estuprador”, na qual os tweets indicam que o culpado pelo crime é sempre o estuprador, e não a vítima.

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Os termos “bêbada” e “roupa” também aparecem em tweets afirmando que não interessa se a mulher está bêbada ou a roupa que ela está vestindo, não há justificativa para o estupro. “Direito” aparece em tweets para dizer que ninguém tem o direito de violar o corpo da mulher, termo que também aparece com destaque. O termo “defendendo” está linkado ao “justificativa” porque muitas pessoas se mostraram indignadas com o fato de que há pessoas buscando justificativas e defendendo o ato. O grupo em laranja aparece com os termos “estupro coletivo”, com menções ao perfil da Polícia Federal e o Acusado 01, que após as denúncias e o fato já ser de conhecimento da rede – e o perfil dele ter sido bloqueado – não recebe tantas menções.

Terceira coleta: 26 de maio, 17h00

A terceira coleta do termo “estupro” – que já não aparecia mais nos trending topics – foi realizada no dia 26 de maio, às 17h00, onde foram coletados 15.877 tweets (grafo 03). Os termos de maior evidência gerados neste grafo são “estupro coletivo”, “garota/menina/moça”, referindo-se à adolescente estuprada, outro termo que também aparece em evidência, assim já surge também o termo “cultura do estupro”, assunto que foi muito debatido no Twitter e também no Facebook e gerou uma série de questionamentos sobre o que é e como combater a cultura do estupro.

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No grupo em azul é possível perceber que há a relação das palavras “crime”, “vítima”, “violência”, “polícia”, “garota/menina/moça”, “estuprada”, “suposto” e o perfil do @JornalOGlobo, que aparece noticiando sobre o estupro coletivo. Havia tweets debochando e reclamando do fato dos veículos de notícias estarem usando o termo “suposto” para tratar do estupro, ainda que existam vídeos e fotos do acontecido.

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Grafo 3: co-ocorrências no Twitter às 17h do dia 26/05/2016

No grupo em vermelho aparecem relacionados os termos “absurdo” e “feminista”, sobre tweets que diziam que não era necessário alguém ser feminista para achar estupro um absurdo. O termo “feminista” também apareceu em tweets dizendo que as feministas omitiram o fato de que foi a ala “machista” que denunciou o vídeo. Os termos “machismo” e “feminismo” também aparecem fazendo contraponto sobre a cultura do estupro, falando sobre a necessidade do feminismo e a existência do machismo na sociedade.

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O outro cluster do grafo, em roxo, usa os termos “terror”, “indignação” e “tristeza” sobre a reclamação de uma usuária que se diz indignada por ter postado sobre o estupro com tristeza e ter recebido piadas como resposta. O termo doença surge novamente a fim de reafirmar que ser estuprador não é doença, por isso o termo aparece, ainda que não muito evidente, relacionado à expressão “cultura do estupro”.

Quarta e última coleta: 28 de maio, 00h30

A última coleta foi feita na madrugada do dia 28 de maio, e corresponde ao menor número de tweets: 4.912. Além do termo “estupro coletivo” a expressão “cultura do estupro” aparece como um dos termos mais citados e mais centrais.

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Grafo 4: co-ocorrências no Twitter, 00h30 do dia 28/05/2016

O grupo em azul faz referência a uma notícia do @JornalOGlobo, sobre especialistas falando como a cultura machista culpa as vítimas de estupro. O perfil do @UOLNotícias também aparece comentando sobre o caso no Brasil, e o termo “imprensa internacional” traz tweets que ressaltam o fato de o caso ter repercutido em outros países. Os termos “jogador” e “suspeito” se referem ao ex-namorado da adolescente, acusado de participar do estupro coletivo.

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O termo “justificativa” (em verde) aparece relacionado ao termo “mulheres” e a tag “#EstuproNãoÉCulpaDaVítima” (que apareceu no Twitter no dia 27 de maio), com o intuito de desconstruir o discurso da cultura do estupro que tenta buscar justificativas para as mulheres vítimas de estupros ou outras violências. “Piada” é referente a mais de mil retuites no qual Usuário 06 afirma já ter feito piada sobre estupro há alguns anos, mas que sua mentalidade era totalmente infantil.

Resumo:

Com as quatro coletas realizadas percebe-se que no primeiro grafo o intuito das pessoas era, principalmente, pedir que os perfis dos acusados fossem denunciados, já que um deles havia postado o vídeo da menina que sofreu o estupro coletivo. Os perfis da Polícia Federal e da Polícia do Rio de Janeiro são mencionados e os comentário são sobre o que está acontecendo. Também surgiram tweets recriminando aquelas pessoas que estavam compartilhando o vídeo, ainda que com a intenção de fazer com que as pessoas os denunciassem.

Já no segundo grafo a repercussão se modifica um pouco e começa a se construir discursos de repúdio ao ato, o reforço de que a culpa não é da vítima, mas sim do estuprador, e que independente da roupa que a mulher veste seu corpo não deve ser violado, assim como o termo machismo surge para mostrar que os homens poderiam se chocar com o machismo assim como se chocam quando ao falar de violência contra a mulher eles acabam sendo generalizados.

O termo “cultura do estupro” surge nos terceiro e quarto grafos, assim como os termos “violência”, “feminista” e “feminismo”, construindo a ideia de que há, na verdade, uma cultura de violência contra a mulher, de reafirmação de que o estupro não é uma doença e a presença dos termos “justificativa”, “justificar” ou #EstuproNãoÉCulpaDaVítima, que reforçam a ideia de que não há como justificar tal ato. Parece haver uma necessidade bem pontual de caracterizar esses discursos para que as pessoas que buscam justificativas não as façam.

Metodologia
Coleta: NodeXL
Formatação e filtro: Notepad++ e Textometrica
Formatação e análise: Gephi

#BelaRecatadaedoLar: como a hashtag foi apropriada no Twitter

por Pricilla Soares, Letícia Schinestsck e Carolina Rodeghiero

Nos últimos dias acompanhamos na internet a manifestação de muitas mulheres e também de alguns homens postando textos e especialmente fotos com a hashtag #belarecatadaedolar. A viralização da tag se deu originalmente pela publicação de uma matéria da Revista Veja, que apresenta a vice primeira-dama Marcela Temer em fatos contados por pessoas de seu círculo familiar e social. A Veja exalta a personalidade e estilo de vida de Marcela, que, como o próprio título da reportagem apresenta, se resume em ser uma mulher bela, recatada e do lar.

Houve grande repercussão da matéria em sites de redes sociais como o Twitter e o Facebook. Em dois posts (veja o outro post aqui) nos propomos a analisar dados de co-ocorrência de palavras encontradas em publicações de ambos os sites. No Twitter, coletamos tweets sob a hashtag #belarecatadaedolar em três momentos do dia 20 de abril; e no Facebook extraímos os textos de compartilhamentos da publicação da página da Veja no site realizados do dia 18 (data da publicação) até o dia 20.

Coletamos ao todo 35.948 tweets em três momentos do dia: às 11 horas da manhã, às 16 horas e às 17h30min da tarde. Para analisarmos as co-ocorrências de palavras no Twitter, iniciamos com os dados da coleta das 11h, passamos pela das 16h e finalizamos com a das 17h30min, as três do dia 20 de abril. Para extrair os dados, usamos o NodeXL. Já a formatação e filtro fizemos com o Notepad++ e o Textometrica, enquanto os grafos finais foram criados com o Gephi. Com os grafos representativos das co-ocorrências de palavras em relação à hashtag #belarecatadaedolar no Twitter, temos uma visualização nítida sobre o que está sendo discutido na internet em relação ao assunto. O grafo a seguir apresenta as menções encontradas nas primeiras horas de discussão do #belarecatadaedolar no Twitter. Ao todo, foram coletados 2.872 tweets.

Para analisarmos as co-ocorrências de palavras no Twitter, iniciamos com os dados da coleta das 11h, passamos pela das 16h e finalizamos com a das 17h30min, as três do dia 20 de abril. Para extrair os dados, usamos o NodeXL. Já a formatação e filtro fizemos com o Notepad++ e o Textometrica, enquanto os grafos finais foram criados com o Gephi. O grafo a seguir apresenta as menções encontradas nas primeiras horas de discussão do #belarecatadaedolar no Twitter. Ao todo, foram coletados 2.872 tweets. (clique na imagem para ver maior)

BRdL_Twitter_11h_normalFigura 2. Grafo das co-ocorrências no Twitter às 11h do dia 20/4/2016

Em uma primeira observação, percebemos em laranja a forte ligação entre “Revista Veja”, “homenagem” e “bordadinho”, vendo que essas palavras também estão conectadas a “machismo”. Tal grupo discursivo faz menção à matéria da Veja de forma crítica e contra a mensagem contida na revista. O grupo representado em verde está diretamente ligado ao primeiro, contendo a menção “mulher”, bem forte na rede, junto a “vida”, “exemplo”, “decorativa(o)” e “machismo”, sugerindo aqui a série de posts em que o apelido “decorativo” também serve para a esposa de Michel Temer, que sofre críticas sobre ser um vice-presidente decorativo no Governo. “Exemplo” e “vida” são fortemente ligados por exaltarem como a Veja anuncia Marcela Temer como um exemplo de vida, e sua ligação com “machismo” opina que atores são contrários a esta opinião. O grupo em azul liga sempre Marcela ao marido Michel Temer, e o grupo em roxo representa os tweets que mais fizeram menção a outras hashtags, como #vejamachista, #SQN e #ficaquerida, apresentando aí mais discursos contrários à Veja.

Espaço de desconstrução

Com a tag #belarecatadaedolar e a relação de uso de termos como “machismo”, “homenagem”, “bar” e “patriarcado” percebe-se a tentativa de desconstrução daquilo que a Revista Veja tentou reproduzir na matéria, sobre o que seria aceitável em uma pessoa do gênero feminino na sociedade atual. Entendendo o gênero como uma construção social e que sofre interferências de contextos históricos e culturais (Butler, 2013; Scott, 1995) pode-se compreender que são usados alguns termos e tags como #vejamachista e #sqn para reafirmar que a revista está estabelecendo um padrão de gênero feminino que não é tão corroborado por alguns grupos sociais.  A própria tag que gerou o protesto e os espaços de fala criados a partir dela, contrários ao que as palavras “recatada” e “do lar” significam, já representam uma quebra discursiva. Há a relação direta dos termos “Veja” e “homenagem”, que usam o recurso do humor e da desconstrução de uma norma que performatiza o gênero feminino, a fim de tentarem estabelecer novas formas de ser e agir das mulheres.  Há ainda a presença da tag #FicaQuerida, apresentada na Figura 2, criada em oposição ao slogan “tchau, querida” dos deputados federais que são a favor do impeachment, e que discursivamente também apresenta características de violência simbólica contra o gênero feminino.

Outros tweets são mais didáticos, explicando que a crítica e o protesto não são contra Marcela Temer, mas sim contra a visão machista da Revista Veja (#vejamachista), que coloca a mulher não como parte de um todo social, mas sim a limita ao lar, ou a uma vida mais tradicional.
No meio da tarde, com a hashtag ainda mais trending, coletamos o total de 15.945 tweets às 16 horas. Desta coleta surgiu o grafo a seguir, que apresenta em cores os principais grupos discursivos do momento em que muitas pessoas estavam discutindo o assunto ao mesmo tempo no Twitter. (clique na imagem para ver maior)

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Figura 3. Grafo das co-ocorrências de palavras no Twitter às 16h do dia 20/4/2016

A começar pelo grupo em amarelo, percebemos novamente a palavra “homenagem”, ligada desta vez a “ops” e aos principais atores nessas co-ocorrências. O grupo em verde liga #belarecatadaedolar a tag #vejamachista, “machismo”, “foto”, “parecidas” e “bar”. Aqui percebemos a já existência na rede do movimento em que diversas mulheres postaram fotos e imagens em tom de ironia quanto a serem também “belas, recatadas e do lar”, o que, neste caso, aparecia também como do “bar” nas publicações. O grupo discursivo em azul aparece sob as palavras “Temer”, “primeira dama”, Marcela Temer”, “presidente”, “namorado” e “diferença”. Vemos aí uma discussão em torno dos personagens da matéria em si, Michel Temer já apresentado como presidente, Marcela Temer como primeira dama, e também o comentário sobre ele, com 43 anos de “diferença” de idade para ela, provavelmente ter sido o primeiro “namorado” da moça, que tinha 19 anos quando tiveram o primeiro encontro.

Outro grupo usa co-ocorrências como “mulheres”, “contra”, “tradicional”, “casa” e “anos”, e este grupo está conectado ao que menciona a palavra “feminista” em azul claro, junto a “mulher” e “lugar”.

O #SQN – “só que não” – aparece novamente. Com apenas três letras, a expressão tem o poder de desconstruir toda a composição do tweet. Assim, o discurso significa seu contrário somente pelo uso da hashtag. Observamos o uso de #SQN especialmente nas postagens que ironizam o próprio usuário, isto é, publicações em que o indivíduo utiliza sua própria imagem para se mostrar contra o discurso da Veja e não apenas apropriar-se de uma figura pública (Marcela Temer) para a construção de seu posicionamento sobre o assunto. De um jeito bem humorado, atores na rede começaram a se “auto-memetizar”, se é que podemos chamar assim, e engajar-se no movimento na rede.

Só foi possível participar do #belarecatadaedolar aqueles que buscaram em seu cotidiano momentos nos quais seu comportamento seria julgado oposto a belo, recatado e do lar. Para “brincar” com a rede, portanto, é preciso que se pense uma maneira que esteja inserida na proposta e isso, consequentemente, obriga que se faça um esforço mental e se reflita sobre o que está acontecendo no contexto atual onde se está inserido. Saber como se enquadrar na piada para que ela tenha graça. Que sentido haveria se as mulheres postassem fotos cuidando da casa, cozinhando ou coisas parecidas, se não houvesse o entendimento comum da hashtag? Desta forma, o humor contribui como o gatilho para que o discurso conservador utilizado na matéria da Veja seja questionado e refletido por usuários que sequer são atingidos por outras vias, mas que se sentem provocados e instigados a participar da mobilização coletiva online.

“Feministas”

O termo “feminista” aparece com menor ênfase, mas é usado categoricamente como um termo pejorativo. Os tweets que citam “feminista” ou “feministas” também estabelecem uma representação para pessoas do gênero feminino que não se encaixam nas expectativas por elas esperadas.  Os discursos criados em tornos dos termos usados estabelecem uma norma e uma violência simbólica e sistêmica (Bourdieu, 1989; Žižek, 2009) , que tenta recolocar as mulheres “em seus lugares”, afirmando o que as mulheres “tem que ser”  e qual o “lugar de mulher”.

A própria postagem da @mc_caroloficial usando o humor desconstrói a ideia padronizada do que representa o gênero feminino para as próprias mulheres, mas também estabelece comparações diretas entre Marcela Temer e seu estilo de vida, o que pode gerar diferentes interpretações.

A última coleta do Twitter foi às 17h30min, com #belarecatadaedolar ainda trending. Criado a partir desta coleta, o grafo da Figura 4 apresenta grandes semelhanças em comparação ao anterior. No grupo azul, por exemplo, observamos novos termos como “Rihana”, “recatado” e “belo”. O nome da cantora se misturou ao assunto pela estréia de um videoclipe no dia 19, cuja crítica considerou “para maiores de idade”, ou seja, nada recatado, sob a ótica da linha editorial da Veja. (clique na imagem para ver maior)

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Figura 4. Grafo de co-ocorrências no Twitter às 17h30min do dia 20/4/2016

É interessante o uso de recato e beleza desta vez para qualificar o masculino. Isso se deu especialmente por publicações que tentaram abordar o tópico de forma a inverter a situação e apresentar, por exemplo, alguma figura política como belo, recatado e do lar, e o quanto isso, na opinião dos atores, também não faria sentido.

Comparações entre Marcela Temer e Dilma Rousseff

Por fim, observamos que apesar do perfil de Marcela Temer ter sido divulgado pela Revista Veja em um momento político do País no qual uma presidenta mulher está sendo julgada em um processo de impeachment, de outras reportagens terem surgido falando sobre o “descontrole emocional” de Dilma Rousseff, e outras publicações contendo violência simbólica e de seus estereótipos  (como foi o caso da revista IstoÉ, que também suscitou um protesto no Facebook e no Twitter), a presidenta não foi muito citada nos tweets, deixando o foco do protesto realmente para a publicação da Revista Veja, sem estabelecer discursos comparativos sobre diferenças no tratamento dado a essas mulheres e o que elas representam socialmente.

 

Metodologia
Coleta: NodeXL
Formatação e filtro: Notepad++ e Textometrica
Formatação e análise: Gephi

“Bela, recatada e do lar”: o compartilhamento no Facebook como apoio e oposição à matéria da Veja

por Carolina Rodeghiero, Letícia Schinestsck e Pricilla Soares

Em sequência do post sobre as formações discursivas da hashtag #belarecatadaedolar no Twitter, analisamos também as co-ocorrências de palavras que apareceram em compartilhamentos da publicação da matéria da Veja na página da própria revista no Facebook. Coletamos o conteúdo de todos os compartilhamentos feitos de 18 a 20 de abril, que, com ou sem texto, somavam 2.500. (clique na imagem para ver maior)

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Figura 1. Matéria da Revista Veja, publicada em 18/4/2016

Os compartilhamentos foram feitos por homens e mulheres, estas, a maioria. A maior parte das mulheres que adicionou aos compartilhamentos textos comentando a publicação da Veja lamentou a publicação e se representou de maneira diferente a de Marcela, mostrando o que seria, então, uma “mulher de verdade”. Houve também compartilhamentos de mulheres que corroboraram o discurso da revista Veja, elogiando Marcela Temer, a chamando de linda e reafirmando que ela será uma ótima “primeira dama”. Há novamente a construção social de representação do gênero feminino e a tentativa de desqualificar quem não representa a norma, ou seja, as mulheres que desconstruíram a matéria da Veja. Compilamos o texto de todos os compartilhamentos públicos realizados até a noite do dia 20 no Facebook, e apresentamos a seguir o grafo de co-ocorrências de palavras nesses compartilhamentos. A primeira diferença deste para os grafos do Twitter é que não há a hashtag #belarecatadaedolar, já que a coleta foi feita manualmente e não houve, nos textos coletados, sua menção. (clique na imagem para ver maior)

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Figura 2. Grafo de co-ocorrências em compartilhamentos da publicação de @Veja no Facebook

No grafo do Facebook também percebemos os diferentes grupos discursivos. O grupo representado em laranja, por exemplo, cita bastante o texto da matéria da revista, uma forma de marcar o assunto assim como a hashtag no Twitter. “Bela”, “recatada” e especialmente “do lar” estão fortemente ligadas a “homem”, “sorte”, “cuidar”, “casa”, “escola” e “Michelzinho”, todas palavras abrangidas pela Veja no que apresentava o perfil de Marcela e a chamada sorte de Temer por ser casado com ela. O grupo em verde é mais protestante em relação à “@Veja”, chamando a revista de “machista”, apresentando um sentimento de “vergonha” e “nojo” em relação a publicação e comparando o ideal de mulher da revista como do “século passado”. Usa bastante a tag #VejaMachista e em alguns momentos fala em “golpe” no sentido de dizer que uma mulher de 20 anos casar com um homem de 62 certamente podemos chamar assim. Em alguns casos contrariando e em outros ironizando este grupo, as formações discursivas em azul se dividem entre as que falam em “amor” sob qualquer circunstância,  reforçando Marcela como uma “primeira-dama” “linda” e “boa”.  

Quanto aos homens que compartilharam a postagem, a maioria deles não faz comentários quando a compartilha. Algumas das postagens compartilhadas por eles recebe outros comentários, também de homens, que elogiam Marcela e a comparam com “Dilma” – aqui há, ao contrário das postagens no Twitter, mais nitidamente a comparação entre as duas mulheres, principalmente em relação à beleza. Há também comentários nas postagens compartilhadas de mulheres que são avessas ao discurso proposto pela Veja.

Os homens que compartilharam a postagem com comentários se dividem entre os que ressalvam o discurso da Veja e aqueles que o criticam; os primeiros dizendo que Marcela Temer representa realmente uma primeira-dama, e os demais lamentando a escolha discursiva da matéria. No caso dos que reiteram a mensagem propagada pela revista, os comentários apagam a existência de Marisa Letícia, esposa de Lula e primeira-dama durante o período em que ele ocupou o cargo de presidente, como na frase “depois de 13 anos o Brasil finalmente ganhará uma primeira-dama”. Ou seja, apaga-se a figura de uma mulher que não representa o gênero feminino como recatado, belo e do lar.  

Twitter x Facebook

Diferentemente do que vimos nos tweets, os compartilhamentos da publicação de Veja no Facebook não trazem a hashtag #belarecatadaedolar, e não usam da ironia observada no fenômeno de publicações de fotos de mulheres do Brasil inteiro no dia 20, apresentando-se em comportamentos diferentes dos retratados pela Veja sobre Marcela Temer.  Vemos aqui, sim, um dos focos da repercussão da matéria, talvez o start para o fenômeno de manifestações que surgiram.

Nos compartilhamentos é possível perceber as relações que os próprios usuários da rede estabelecem no fato de Marcela estar exclusivamente ligada ao lar, ao filho, ao cuidado com a casa e com o marido, ao fato de ela ser considerada bela e de Michel Temer, justamente e unicamente por estes atributos, ser um homem de sorte. Quem apoia a matéria reafirma a beleza de Marcela, e muitas vezes a compara com Dilma. E quem a contraria cita trechos ou usa expressões presentes na revista para justificar os pontos dos quais diferem. É possível reiterar essa observação pelo número de vezes em que o texto da revista foi citado nos compartilhamentos como forma de replicar o conteúdo da publicação com os demais membros do Facebook. Alguns dos atores trazem declarações de que jamais compartilhariam algo da Revista Veja, mas que pelo teor do conteúdo se sentiram obrigados a fazer.

Ambos Twitter e Facebook tiveram tom de protesto e opiniões a favor e contra a Veja, mas nesta análise o Facebook se apresentou, sob a observação de comentários anexados aos compartilhamentos, como um primeiro contato do ator com a notícia, e fora do movimento observado no Twitter. Neste sentido precisamos levar em conta que coletamos  os compartilhamentos diretamente da fonte da notícia, e não daqueles que constituíram a manifestação mediante a #belarecatadaedolar em posts no Twitter e fotos do Instagram com a tag que viralizou.
Metodologia
Coleta: manualmente
Formatação e filtro: Notepad++ e Textometrica
Formatação e análise: Gephi

Dia do Índio

A partir do primeiro Congresso Indigenista Interamericano realizado no México em 19 de Abril de 1940, para tratar de questões relacionadas aos índios nas Américas, foi recomendação de uma delegação de indígenas do Panamá, Chile, Estados Unidos e México, e posteriormente decretada como lei no Brasil por Getúlio Vargas, que a data seria considerada o Dia do Índio. Em toda a América o mesmo ocorreu, nos países americanos de língua espanhola surgia o Día del Indio Americano. Entre as recomendações da delegação indígena estava a de que nesta data haveria a celebração da história e cultura dos índios, por meio do estudo de seus problemas atuais em instituições de ensino. Provavelmente você que está lendo este post já participou do Dia do Índio quando na escola. Mais do que uma lei, as comemorações aos indígenas se tornaram tradição no Brasil, com algumas escolas estendendo a data para uma semana inteira de atividades relacionadas a cultura dos povos nativos americanos.

Neste 19 de Abril de 2016, a palavra “índio” permaneceu trending topic (assunto do momento) no Twitter durante o dia inteiro, e coletamos os tweets para saber quais foram as co-ocorrências de palavras mais frequentes no discurso relacionado a data na internet. Ao todo, foram coletados 24.437 tweets com o NodeXL, e apresentamos os dados discursivos a partir da leitura que fizemos no Textometrica, sob o critério de a palavra ser mencionada no mínimo 50 vezes e excluindo resultados em línguas estrangeiras, disponibilizando para a análise apenas as publicações em Português do Brasil. Para finalizar, usamos o Gephi na construção dos grafos (clique na imagem para ver maior) que apresentamos a seguir:

Indio

Figura 1. Co-ocorrência de palavras no Twitter relacionadas a “índio” em 19/4

O primeiro grafo apresenta uma distribuição de co-ocorrências em relação a palavra “Índio”. Notamos a presença da palavra “Brasil” conectada a “indígenas”, “devolver” e “presente”. Percebemos aí também uma rede que tem atores protagonistas do discurso, como @gustastockler, @oBrasilBR e @VocêNaoSabiaQ. Pelas menções, observamos a lembrança de que no dia 19 de abril também é comemorado o dia do Exército brasileiro, e que a data é chamada Día del Indio Americano em países de língua espanhola das Américas e em regiões povoadas por latino-americanos, como o litoral oeste dos Estados Unidos. Há também o pronome de tratamento “mim”, que foi usado tanto em publicações que lembravam o Dia do Índio reiterando uma linguagem composta pelo uso do pronome exageradamente, como em tweets que traziam a ligação com “verbo” no sentido de lembrar a regra gramatical “mim não conjuga verbo” da língua portuguesa.
O grafo a seguir apresenta os dados de forma normalizada, com melhor visualização do que seriam as conexões mais fortes das conversações. (clique na imagem para ver maior)

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Figura 2. Grafo normalizado com palavras co-ocorrentes no Twitter

“Brasil”, “devolver” e “presente”, representado em laranja no grafo, fazem menção a tweets dizendo que o melhor presente aos índios seria devolver o Brasil para os nativos. Estes tweets foram apresentados tanto em tom de ironia quanto de insatisfação com o País. “Mim” e “verbo”, como dito antes, estão fortemente ligados no grupo representado em verde. A palavra “escola” vem acompanhada de “a gente” em tweets nostálgicos sobre a época escolar em que nesta data os atores costumavam realizar atividades escolares e voltar pra casa com a cara pintada. 
Percebemos, assim, a grande ocorrência de termos em comemoração pela data (“parabéns”, “presente”), o forte uso da linguagem estereotipada (“mim”), além da data sendo celebrada também no restante das Américas do Sul e Norte. No entanto, não houve grande representatividade de posts mencionando questões políticas e sociais atuais referentes aos índios no Brasil, na América ou no restante do mundo, como proposto pelo Congresso Indigenista Interamericano nos Anos 40, apesar de a data ter original e oficialmente esta motivação. 

Golpe x Impeachment

 por Carolina Rodeghiero e Letícia Schinestsck

O dia 17 de abril de 2016 entrou para a história do País pela votação do impeachment da Presidenta Dilma Rousseff no Congresso Nacional. A votação foi transmitida, além de como geralmente pela TV Câmara, por diversos canais de TV abertos. Iniciada às 17h da tarde e finalizada pós meia noite, a votação permaneceu em pauta no Twitter sob a tag #ImpeachmentDay, trending topic no Brasil. Seguimos a série de posts do MIDIARS sobre a votação do impeachment no Congresso Nacional, dando continuidade às análises do discurso e argumentação dos votos no dia 17.

Percebendo as prévias marcações representativas do SIM ou do NÃO que seria dito na votação por cada deputado, tendo como exemplo cores das manifestações (vermelho para aqueles contrários ao impeachment e cores da bandeira nacional para aqueles a favor), o muro que foi construído na Esplanada dos Ministérios em Brasília para separar os manifestantes, e discursos na internet, definimos usar como termo de pesquisa as palavras “golpe” e “impeachment”, e assim verificar se Golpe estaria majoritariamente ligada ao discurso do “não”, se Impeachment ao do “sim”, e sob quais termos.

Os dados foram coletados em três momentos: no dia 17 de abril às 17 horas, início da votação; no dia 17 de abril às 23 horas, nos momentos finais de votação e já com o resultado prévio de aprovação do impeachment; e às 18 horas do dia 18 de abril, durante o discurso da Presidenta Dilma sobre a decisão do Congresso Nacional. Ao todo, foram coletados 40.307 tweets sobre GOLPE e 38.468 tweets sobre IMPEACHMENT, sendo o maior volume a coleção do dia 17 à tarde, com 19.875 publicações para a primeira menção e o dia 18 com 19.364 para a segunda.

GOLPE

Quanto a GOLPE, o primeiro grafo apresenta a disposição discursiva geral do dia 17, com os principais atores das discussões na rede. Observamos que o perfil @midianinja, contrário ao impeachment, domina o principal grupo (em verde) e tem alcance inclusive em outros grupos discursivos. Outro usuário de grande representatividade é o @vailagay, perfil engajado em causas LGBT e aqui representado em rosa. @detremura também aparece em um grupo que apresenta publicações a favor do impedimento. (clique no grafo para ver maior)

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Figura 1. Dados do dia 17/4 a partir da palavra “golpe” no Twitter.

Quanto ao conteúdo discursivo, usamos o Textometrica para separar os termos de co-ocorrência com a palavra “golpe”, ou seja, o que foi mencionado no Twitter sobre o assunto. Percebemos aí a predominância de palavras como “contra”, “democracia”, “impeachment”, “Brasil”, e a tag #respeiteasurnas. Notamos que as hashtags #nãovaitergolpe, #respeiteasurnas e #brasilcontraogolpe fazem parte do mesmo grupo de discussão, ou seja, estão mais frequentemente ligadas nos discursos sobre o golpe. 

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Figura 2. Co-ocorrência de palavras relacionadas a “golpe”

Outra constatação é um grupo isolado a favor do impeachment, representado no grafo em amarelo, que interliga os termos “corrupto”, “político” e “poder”, três palavras que aparecem no tweet de @detremura: “Vc que fica repetindo que é golpe tirar político corrupto do poder #ImpeachmentDay” A publicação teve 370 retweets (até a publicação deste post) e 354 likes. Já o @midiaNINJA apresentou durante todo o dia 17 tweets com fotos de diversas cidades brasileiras onde estavam ocorrendo manifestações contra o impeachment. Em uma das postagens ele escreve “Milhares contra o golpe #respeiteasurnas”, com 574 retweets e 554 likes.

Outro fator que chama atenção é a forte menção ao presidente da Câmara Eduardo Cunha, que aceitou e liderou a votação do processo de impeachment da presidenta, e sua ligação com Temer, vice-presidente da República, PMDB, partido de ambos, e PSB.

Desta vez com a coleta de 2.283 tweets e 2.360 atores, observamos uma mudança no discurso quando comparamos o dia 17 ao dia 18. Durante o pronunciamento da Presidenta Dilma Rousseff sobre a votação de seu impedimento, as menções mais relacionadas a golpe são marcadas pela repercussão internacional da notícia, pelo apoio de líderes latino-americanos ao julgar o resultado como golpe, e, com muita força na rede, a declaração do deputado Jair Bolsonaro ao votar sim pelo impeachment, homenageando o Golpe de 64 dizendo “… perderam em 64 e vão perder em 2016”. A polêmica da justificativa do voto se deu especialmente pela homenagem que o deputado fez ao torturador de Dilma durante a Ditadura, o Coronel Brilhante Ustra. Assim como Bolsonaro, o presidente da Abril aparece nas co-ocorrências a golpe, devido a uma notícia de que o presidente da Editora Abril enviou uma carta aos funcionários comemorando a decisão do Congresso Nacional e dizendo que a empresa irá lucrar com o impeachment(clique no grafo para ver maior)

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Figura 3. Grafo normalizado de menções do dia 17/4

Outra característica do dia 18 foi a tag #ALutaComeçou, contrária a decisão da Câmara e determinada a chamar novas manifestações dos grupos pró-governo às ruas nas próximas semanas. Além disso, a menção a “votos” se deu tanto em referência aos votos dos deputados quanto a discussão sobre o valor do voto do eleitor no Brasil.

A imprensa latino americana descreve a votação como golpe de Estado, e, sob o apoio do presidente da Venezuela Nicolás Maduro em apoio à Dilma, a hashtag #ForaDilmaFueraMaduro é reforçada na rede, a favor do impeachment, assim como a hashtag #NoAlGolpeaDilma, contrária a decisão tomada no dia anterior.

 

IMPEACHMENT

Sob a mesma lógica da coleta de “golpe”, aqui trabalhamos a palavra “impeachment” e retiramos dados do Twitter também nos dias 17 e 18 de abril de 2016. Como ferramentas de coleta e análise, usamos o Gephi e o Textometrica para sustentar e construir a análise. Com o NodeXL coletamos 15.082 atores em 18.104 tweets. A ideia foi observar as diferentes correntes discursivas que circulam na rede em referência ao mesmo termo, sob contextos e interpretações distintas.
Inicialmente apresentamos de forma geral os atores em destaque nas formações discursivas realizadas no Twitter durante a votação do impeachment. Percebemos cada cor do grafo a seguir como representativa de um grupo na rede, destacando @depbolsonaro, @blogteleguiado, @OledoBrasil e @blogdopim como os principais atores durante a coleta. (clique no grafo para ver maior)

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Figura 4. Dados do dia 17/4 no Twitter a partir da palavra “impeachment

Quanto ao discurso, apresentamos aqui um grafo que já expõe de forma nítida uma divisão de correntes discursivas nas co-ocorrências de palavras em relação a impeachment. As conexões representadas em rosa parecem pertencer a tweets oriundos de notícias, enquanto as coloridas em verde representam mais fortemente manifestações contrárias ao Governo.

Para a construção deste grafo, filtramos os dados no Textometrica para que só constassem as palavras com 200 ou mais co-ocorrências.

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Figura 5. Grafo com dados de co-ocorrências da palavra impeachment em 17/4

Para observarmos melhor os dados, distribuímos os dados em uma versão normalizada do grafo. Aqui podemos ver bem demarcadas as conexões e os grupos discursivos que são formados na rede. O grupo representado em azul tem diversos nós com grandes menções na rede, e estão altamente conectados entre si. @depbolsonaro, perfil oficial do Deputado Jair Bolsonaro no Twitter, tem forte engajamento com as hashtags #ForaDilma, #ForaPT e #LulanaCadeia. O deputado, como foi dito na análise de “golpe”, votou a favor do impeachment. (clique no grafo para ver maior)

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Figura 6. Grafo normalizado com co-ôcorrências da palavra “impeachment” em 17/4

Outra característica do grafo é que apresenta as demais conexões muito próximas de “impeachment”, mas fazendo referência a diversos tópicos, não necessariamente em campanha contra o governo. Até mesmo “jogo do Flamengo” aparece diversas vezes, sob a reclamação de alguns usuários porque a Rede Globo estava transmitindo a votação ao invés do futebol tradicional de domingo.

Seguindo a análise, notamos que a palavra impeachment vem muito mais carregada da referência à presidenta como Dilma Rousseff, enquanto “golpe” se refere à chefe de Estado como Dilma simplesmente. É interessante observar e pensar para análises futuras se há aí um discurso propositalmente fundamentado em relações de distância e aproximação, dependendo da posição política, ou se essa diferença no tratamento se deve a outros fatores, como por exemplo a linguagem jornalística. Reforçamos esta observação a partir dos dados de “golpe”, em que os tweets majoritariamente chamam Dilma de “presidenta”, enquanto os dados de “impeachment” a chamam de “presidente”.

18 de abril

Passada a votação, com resultado de seguimento ao processo, a coleta do dia 18 se voltou a discursos referentes a repercussão do que ocorreu durante e após a decisão dos deputados.

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Figura 7. Grafo normalizado para co-ocorrências da palavra “impeachment” no dia 18/4

Um fato em particular roubou a atenção da internet no dia seguinte a votação do impeachment. O marido de uma deputada que gritou “SIM, SIM, SIM” durante o voto, dedicando o momento a sua família e usando seu marido como exemplo de como o Brasil pode combater a corrupção, foi preso pela Polícia Federal na manhã de segunda-feira, por corrupção em sua gestão da prefeitura de Águas Claras, Minas Gerais. As referências em verde e laranja no grafo apresentam as conexões de palavras ligadas a tweets neste sentido, como “preso”, “Minhas Gerais” e “Polícia Federal”. Há também a forte ocorrência de “elogiado”, “corrupção”, “deputada”, “marido” e “exemplo”, fazendo referência ao mesmo caso.

No dia 18 também houve muitas menções quanto do dólar, que não baixou como o mercado previa, e ao Senado, que seguirá com a votação do processo de impeachment.

De forma geral, o termo GOLPE é muito mais relacionado a tweets a favor do governo, enquanto IMPEACHMENT reforça tags contrárias a permanência de Dilma Rousseff no poder. Ainda assim “impeachment” é bastante utilizada por ambos os lados, além da mídia. Esta breve análise é um pontapé inicial para aprofundarmos a discussão dos dados quanto a marcações discursivas de ambos os termos isoladamente e também de forma conectada.

Os argumentos dos deputados

Ontem aconteceu a votação relativa ao processo de impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados. Com a aprovação, o próximo passo é a votação no Senado. Dentre outras coisas, o que chamou a atenção foram as justificativas dos deputados. Por isso, decidiu-se realizar uma análise a partir de um viés argumentativo (oriundo da retórica). Para uma visualização dos discursos analisados, utilizam-se dois grafos gerados a partir da análise de conteúdo e de co-ocorrência. Os grafos aqui apresentados foram apropriados do post anterior sobre o tema (da Raquel Recuero, utilizando os dados do Felipe Pacheco).

Os votos sim: “pelo meu estado, pelo Brasil, por Deus, pelos meus filhos, pela minha família…”
Entre os deputados presentes, 367 votaram “sim”. Na Figura 1 é possível ver como foram realizados os discursos a favor do impeachment. Quanto maior o conceito, mais frequente ele é. No centro do grafo estão os que foram mais citados conjuntamente e mais afastados do centro estão os menos citados.

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Figura 1: Conceitos dos deputados que votaram “sim”

O que se percebe é que no núcleo dos discursos estão os conceitos relacionados com seus estados de origem, com o Brasil, com o povo, e com as suas famílias. Há ainda com alta frequência a referência a Deus e aos partidos dos deputados. Também se pode citar o grupo laranja (os conceitos estão separados em grupos de cores conforme sua modularidade – frequência com que aparecem juntos), onde estão elementos mais associados ao processo de impeachment, como “responsabilidade” (fiscal) e “crime”.

Se pode concluir, então, que as justificativas dos votos a favor do impeachment possuíam geralmente um cunho mais pessoal do que processual. Com isso, é possível questionar o tipo de argumentos foram utilizados pelos deputados.

Podemos citar primeiramente a ligação simbólica, descrita por Chaïm Perelman (1993). A ligação simbólica é um tipo de argumento que relaciona o símbolo com o que ele evoca. Assim, os deputados se construíam como símbolos: do seu estado, da sua família, de seus eleitores, do Brasil e, até mesmo, de Deus. Isto porque muitos dos discursos eram iniciados com estas referências: “Pelo meu estado, pela minha família, pelos meus filhos…”. Isto pode ser visto nos dois exemplos a seguir (optou-se por citar deputados gaúchos em função da proximidade geográfica):

Afonso Hamm (PP-RS.) :  Em nome do povo gaúcho, povo do meu Estado, em nome do povo brasileiro, para votarmos a favor da mudança, a favor da esperança, sim ao impeachment!

Osmar Terra (PMDB-RS.) :  Pela minha família, minha esposa, meus filhos, pelas famílias brasileiras, pelas crianças do Brasil, pela minha Santa Rosa, meu povo do Rio Grande, pelo Brasil, é sim, Sr. Presidente!

Os exemplos acima ainda podem ser associados a outro tipo de argumento, que é construído como falácia (argumentos que violam alguma regra lógica – seriam os argumentos que buscam mais enganar do que persuadir). É o argumento/falácia ad populum (WESTON, 2009). Esta falácia busca apelar para a emoção das massas – está, portanto associada ao que Aristóteles chama de pathos: despertar emoções no seu auditório. Quando os deputados justificam seus votos pelo “povo”, estão claramente se apropriando deste argumento, ou seja, os deputados não estão apenas representando simbolicamente o povo, estão também realizando a vontade dele.

Os votos não: “Contra o golpe, a favor da democracia”
O voto “não” foi realizado por 137 deputados. Como pode ser visto na Figura 2, alguns dos conceitos centrais são os mesmos dos votos “sim”, como “povo” e “Brasil”. Outros, porém, são diferentes e marcam a gênese dos discursos realizados pelos deputados que votaram “não”: “democracia”, “golpe, “respeito” e “constituição”.

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Figura 2: Conceitos dos deputados que votaram “não”

O que se percebe, então, é que o núcleo argumentativo se altera na maior parte das situações. Os deputados que votaram “não” questionam a legalidade do processo de impeachment. As justificativas, portanto, estão bem mais relacionados com elementos processuais, que apelam aos conceitos “democracia”, “golpe” e “constituição” para reforçar a afirmação de ilegitimidade do processo. Algumas referências a “Cunha” também são realizadas, questionando a credibilidade do deputado para conduzir a votação e presidir a Câmara. Também se pode perceber a referência ao “povo” e ao resultado das “urnas” como argumento para a ilegalidade do processo. Isto pode ser visto nos três exemplos a seguir:

Henrique Fontana (PT-RS.): Contra a conspiração e a corrupção representadas por Eduardo Cunha e Temer; contra o golpe; em defesa da democracia e do respeito ao voto do cidadão brasileiro, eu voto com toda convicção não a esse golpe, não a esse impeachment!

Marco Maia (PT-RS.) : Pelos trabalhadores e trabalhadoras do nosso Brasil, pela democracia e pelo respeito ao voto soberano do povo brasileiro,que elegeu a Presidenta Dilma com 54 milhões votos, o meu voto é não a esse golpe

Pepe Vargas (PT-RS.) : Contra o acordão de Eduardo Cunha, Michel Temer e Aécio Neves, que querem abafar o combate à corrupção, contra os golpistas, que não prezam a democracia e os direitos dos trabalhadores, pela Constituição, que jurei cumprir, pela democracia e pela legalidade, meu voto é não ao golpe.

Há um argumento básico nas justificativas pelo “não”: o silogismo, argumento dedutivo clássico, descrito já por Aristóteles. Ele pode ser observado pelo modus tollens (WESTON, 2009), que funciona pelo modelo: Se a, então b; b é falso; logo, a é falso. Na situação analisada pode ser visto assim: Se há crime, o impeachment é legítimo; não há crime; logo, o impeachment é ilegítimo (golpe). Esta é a base para a presença dos conceitos “democracia”, “constituição”, “golpe”, dentre outros.

Também é possível citar a ligação de coexistência (PERELMAN, 1993), quando relaciona um indivíduo e seus atos. Ela está muito próxima do argumento em forma de falácia ad hominem (WESTON, 2009). A ligação de coexistência (como argumento) ou a falácia ad hominem aparecem quando a credibilidade de Cunha é questionada, assim como quando outros nomes são citados (Temer e Aécio, por exemplo). Se Cunha não tem autoridade para presidir o processo, ele seria em sua base ilegal é o modelo de argumentação. A solução entre ligação de coexistência ou falácia ad hominem se dá a partir da maneira como Cunha é considerado: se, de fato, as acusações contra ele possuem fundamento, aqui há a ligação de coexistência (como argumento real); por outro lado, se Cunha é inocente do que é acusado, então haveria apenas a falácia ad hominem.

Por fim, mais uma vez é possível citar, como nas justificativas do “sim”, a ligação simbólica e a falácia ad populum. Novamente os deputados se colocam como representantes simbólicos do povo, agora fazendo referências mais diretas aos “trabalhadores”, às “mulheres”, “reforma agrária” e, novamente, aos seus estados.

O ad populum também pode ser observados nas diversas evocações aos resultados das urnas. A justificativa é que se o povo elegeu Dilma, então a vontade do povo deve ser respeitada e ela deve ser mantida no seu cargo.

Pelo sim, pelo não, o que se entende?
O que se pode concluir é que, de modo geral, os deputados evocaram sua posição como representantes do povo e dos seus eleitores/estados. Os que votaram “sim” ainda buscaram referências a Deus e suas famílias com grande frequência.

Também se vê que os argumentos do “sim” estavam mais vinculados a elementos pessoais, enquanto os do “não” traziam referências mais diretas ao processo do impeachment, questionando o próprio processo e também Cunha, responsável pela sua condução.

No geral, os dois lados utilizaram o argumento/falácia ad populum, justificando que estavam seguindo a vontade do povo, para retirar Dilma de seu cargo (no caso do “sim”) ou para manter a voz das “urnas” e não permitir o “golpe” contra a “democracia” (no caso do “não”).

Referências
ARISTÓTELES. Retórica. 2 ed. Trad. Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto e Abel do Nascimento Pena. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.

PERELMAN, Chaïm. O Império Retórico: Retórica e Argumentação. Trad. Fernando Trindade e Rui Alexandre Grácio. Porto: Asa, 1993.

WESTON, Anthony. A construção do argumento. Trad. Alexandre Feitosa Rosas. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

O Discurso nos votos dos Deputados

Além de crawlear a rede em torno do debate no Twitter, pensamos também em buscar compreender as formações discursivas presentes (ou ausentes) no discurso dos deputados quando foram votar no processo. Com os dados do que foi dito gentilmente cedidos pelo Felipe Pacheco (que também fez uma análise bem legal aqui), fizemos uma análise de conteúdo e co-ocorrências dos temas no votos dos deputados favoráveis e contrários ao impeachment.

Votos pelo SIM
Foram 367 votos pelo “sim”, como sabemos. A seguir, na Figura 1, mostramos o grafo com os conceitos mais citados e suas ocorrências conjuntas. Ao centro do grafo vemos os mais citados entre si (estados, povo, familia, Deus, Dilma, sim, e impeachment) que estão fortemente associados. Quanto mais para a periferia do grafo, menos citados no grupo estão os conceitos.

Dentre os conceitos mais citados nas justificativas pelos deputados, apareceram os conceitos de estado de origem (“pelo meu estado X”), pelas suas famílias (citações a esposas, maridos, filhos etc.), pelo “povo”, por “Deus”, além dos partidos de origem (diversos deputados nominaram os partidos), a constitução federal, os protestos e a corrupção. Temas pungentes como o desemprego e a crise na saúde foram citados, mas por deputados que não referenciaram com tanta força os conceitos centrais (ou seja, foram citados por deputados que em geral não usaram o grupo do meio). Além disso, também apareceram valores abstratos como “esperança”, “futuro melhor”, “dignidade”, “liberdade”, “vida”. É interessante observar também os grupos verde e laranja, que representam fundamentalmente duas posições: Aqueles discursos mais abstratos, que não citaram os fatos principais do processo, mas que estão mais baseados em valores pessoais; e aqueles discursos que citaram de forma mais forte as questões centrais ao processo de impeachment (“responsabilidade” fiscal, crime, processo, governo e etc.).

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Figura 1: Discurso dos deputados que votaram pelo “sim”.

Quando observamos esses discursos a partir da normalização dos conceitos, temos os conceitos mais claramente apresentados (Figura 2). Ao centro do grafo, no maior grupo (rosa), vemos os conceitos “Brasil”, “estados”, “família”e “Dilma”, os mais presentes associados ao “sim”. A ideia do crime de responsabilidade aparece em outro grupo, afastada do centro, indicando, novamente, que as justificativas foram mais pessoais e menos processuais. Os valores mais abstrados também aparecem em outro grupo mais separado.

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Figura 2: Discurso dos deputados que votaram pelo “sim”, dados normalizados.

Votos pelo NÃO
A seguir, vemos o que disseram aqueles deputados que votaram pelo “não”(137 deputados). Na Figura 3 temos os principais conceitos citados por esses deputados. Interessante observar que há várias coincidências com relação aos votos pelo sim. O núcleo central dessas falas é composto pelos conceitos “povo”, “Brasil”, “democracia”, “Dilma”, “constituição”, “golpe”. Vemos, aqui, portanto, que o discurso opositor foi mais concentrado na crítica ao processo de impeachment em si (“golpe”, “defesa”, “constuição”, “respeito”, bem como às eleições- “urnas”) do que às motivações individuais dos deputados. Essas também existem, mas aparecem principalmente no núcleo rosa, na periferia do grafo (onde são citados os trabalhadores, o campo, os jovens, a contrariedade à ditadura, a família e a reforma agrária, dentre outros temas). A questão dos direitos das mulheres também aparece fortemente ligada à discussão (indicando que há uma implicação desse discurso com a questão de gênero, tanto da presidenta quanto das mulheres em geral). Outras justificativas são a defesa do “crime” de “responsabilidade” fiscal, e o respeito às “urnas”.

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Figura 3: Discurso dos deputados que votaram pelo “não”.

Analisando os dados normalizados novamente (Figura 4), ficam um pouco mais claros os conjuntos de conceitos associados. A questão da “democracia”, por exemplo, foi usada como argumento central para este grupo, e está fortemente associada a “Brasil” e “Dilma”. Além disso, outros conceitos fortes são os de “luta”, “mulheres”, “crime” e “responsabilidade”. Os grupos mostram argumentações já mais delineadas em torno da questão processual do que no grupo anterior, onde parece que houve uma questão mais emocional na votação.

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Figura 4: Discurso dos deputados que votaram pelo “não”, normalizado.

Votação do Impeachment na Câmara dos Deputados

Ontem, como todos sabem, tivemos a votação sobre a aprovação do processo de impeachment da presidenta Dilma, que seguirá, daqui por diante, para o Senado. Estamos monitorando essas questões no Twitter. Ontem, dia da votação histórica, coletamos dados a cada 30 min e acabamos com 367.056 tweets e 220.918 atores envolvidos na discussão durante, principalmente, a tarde e a noite. Entretanto, ao contrário do resto da semana, quando a discussão apareceu quase sempre polarizada entre dois grupos, desta vez tivemos muito mais núcleos. Na figura 1, a seguir, vemos que há um núcleo muito mais forte, composto de contas que são citadas entre si, durante o dia de ontem.

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Figura 1: Dados do dia 17/04 a partir da palavra “impeachment” no Twitter.

Vemos de modo mais difuso vários grupos (representados pelas cores) de nós que retuitam as mesmas coisas (o que temos demarcado como “comunidades de posicionamento político”, ou seja, opositores e pró impeachment tendem a retuitar/mencionar mais contas que apoiam suas idéias e não contas contrárias). Há mais pluralidade de idéias e menos polaridade. Apesar disso, continuamos com dois fortes grupos pró (em rosa claro) e contra o impeachment (em verde)demarcados ao centro da imagem. Em um close no grafo, é possível ver esses núcleos de contas que são citadas em conjunto, notadamente associadas a seus posicionamentos.(Só mantive aqui contas com indegree maior do que 500, ou seja, que foram citadas ou retuitadas mais de 500 vezes ontem.)

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Figura 2: Núcleos contra e a favor do impeachment.

A figura 3, a seguir, apenas para que se veja a diferença, são os dados do dia 12/04. Além de, evidentemente, muito menos contas envolvidas, há uma polarização muito mais demarcada do que ontem. Vemos, de modo claro, dois núcleos, um rosa, que representa a oposição ao impeachment (muito mais claro em termos de articulação discursiva) e um mais esverdeado que representa os pró impeachment (menos colorido, ou seja, com mais pluralidade de fontes e menos articulaçào discursiva), no núcleo representado na figura 4.

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Figura 3: Dados do dia 12/04 com a palavra “impeachment” no Twitter.

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Figura 4: Núcleo que mostra as articulações pró e contra o impeachment.

Ontem houve, portanto, uma participação muito maior no debate no Twitter. Mas a redução na polarização mostra que já não houve mais tenta certeza de posicionamento, e que há atravessamento de vários discursos no posicionamento das pessoas. Houve mais pluralidade discursiva (mais em torno do humor) e as posições que antes eram extremamente polarizadas parecem ter reduzido sua força. Talvez um efeito da própria votação ao vivo, onde muitos tweets críticos da posição/apresentação dos deputados tenham aparecido.